14 de mar de 2011

Fotografia dos Sentidos - Rede SACI faz matéria especial sobre Teco Barbero

A Rede SACI (Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação) faz parte do projeto USP Legal e atua no sentido de estimular a inclusão digital e social, disponibilizando informações sobre deficiência em geral.

Fotografia dos Sentidos - A arte fotográfica vista por um outro viés - Parte I
Entrevista com o jornalista e fotógrafo com deficiência visual Teco Barbero

Por Jéssika Gonzalez Morandi


"À semelhança da música, a fotografia é uma arte universal falando também com mais força e de modo mais direto do que as palavras." (MB)

"Fotografar é conseguir captar o que existe atrás do que se vê com os olhos... É ver através de uma parede invisível..." (Autor desconhecido)

"Para todos aqueles realmente capazes de ver, a fotografia tirada por você representa o testemunho da sua existência." (Paulo Straub)

"Everyone has a photographic memory, some people just don't have film!" (Autor desconhecido)

Ao se relacionar fotografia e acessibilidade, logo vem à mente um recurso muito utilizado pela Rede SACI, o alt, que é a descrição das imagens para que os deficientes visuais possam saber do ela trata. Pensando mais amplamente, existem também obras de arte que são fotografias de pessoas com deficiência, tiradas por vários motivos, tal qual se tiram fotos de pessoas sem deficiência, ou com o intuito mesmo de "mostrá-las ao mundo".

Quer dizer, de certa forma há a fotografia PARA a pessoa com deficiência, PELA PcD, mas e a arte fotográfica feita POR pessoas com deficiência? Um deficiente visual, por exemplo. Você conhece (ou já ouviu falar de) algum fotógrafo cego? A Rede SACI conheceu e conversou com um.

Teco Barbero junto de seu objeto de trabalho

Antonio Walter Barbero é um jornalista que tem somente 5% da visão desde que nasceu e é um dos pioneiros na área da fotografia feita por deficientes visuais. Ele nos recebeu em sua casa em Sorocaba (SP), sua cidade de criação e onde vive até hoje.

Não há como dissociar a história de Teco Barbero, como prefere ser chamado, da luta das pessoas com deficiência pela inclusão, como ele próprio afirma. Na entrevista abaixo ele nos conta sua infância e juventude na perspectiva da descoberta da deficiência visual e das adaptações que esta exigiu.

Barbero discorre também sobre sua formação profissional e a escolha de fazer uma faculdade de jornalismo, lidando com todos os obtásculos de um local e curso aparentemente não acessíveis.

Finalmente, o entrevistado diz como se envolveu com a fotografia, por quais razões, assim como o modo de levar isso adiante em sua vida a partir do momento em que percebeu a grandiosidade e repercussão do ato de tirar uma foto; algo simples para muita gente (ainda mais nos dias de hoje), mas que mostra-se um desafio para os que não enxergam. Contudo, um desafio possível e gratificante (como será visto), e que a maioria das pessoas nem imagina.

A repórter da Rede SACI foi por Barbero fotografada e fotografou-o com os olhos vendados à ocasião da entrevista, seguindo, claro, algumas de suas orientações. Veja o resultado na matéria!

Enfim, deixemos que o próprio Teco Barbero fale sobre suas motivações, receios, desejos, superações e, principalmente, sobre sua experiência na área que interliga um ramo importante da arte a um tipo de deficiência: a fotografia dos sentidos.

VIDA


SACI: Pra começar, fale mais sobre você. Você nasceu com deficiência visual?

Teco: Sim, o meu caso é extremamente raro, chama-se 'persistência de vítreo primário'. A gente tem uma parte do olho que se chama vítreo, e, no meu caso, ele continuou reduzido. Além disso, eu tenho pequenos obstáculos na retina, que impedem que a luz chegue lá por inteiro. Eu não deveria enxergar nada, mas, ninguém sabe como, eu tenho a faixa dos 5% a 7% de visão, mais no olho esquerdo do que no direito. Então, a minha visão é estranha para as pessoas, para os médicos, porque eu vejo cores, tamanhos, desde que estejam próximos a mim. Repare que eu uso relógio comum, só que para vê-lo eu o coloco bem próximo. Televisão eu fico bem de frente pra assisitir.


SACI: E isso ao longo do tempo não prejudicou mais sua visão?

Teco: Não. Eu ouvi muito isso também. Quando comecei a trabalhar, há cerca de cinco anos e meio, comecei a pegar o jornal e a ler as manchetes grandes, depois as linhas finas, e, de um tempo pra cá, eu consigo ler pedaços das matérias, até quando meu olho aguenta. Fui perguntar pra um médico e ele disse "você está chegando em uma idade em que tem um pouco de miopia e isso está fazendo com que você consiga aproximar as coisas perto do seu olho esquerdo e assim distinguir letra em tamanho padrão de imprensa". Então, posso dizer que teve até uma certa evolução.

Teco Barbero conversa com a repórter da Rede SACI


SACI: Então uma coisa que a princípio parecia ruim, que é ter desenvolvido a miopia, transformou-se em algo um pouco melhor?

Teco: Sim. E fui eu que descobri [essa melhora]. Claro, eu leio de uma forma única porque, como é só um olho que vê, eu tenho que acertar a posição dele, assim, de luz, apoiar no jornal. As pessoas me veem lendo e perguntam se estou chorando em cima da mesa, algo assim.


SACI: Então você cresceu convivendo com a deficiência, mas e quando chegou o momento de ir à escola, a sua escola foi inclusiva?

Teco: Na época ninguém falava em inclusão. E eu só fui para uma escola “normal” porque minha tia era estagiária lá. Fiz do pré-II até a oitava série, depois não tinha mais. Eu tinha feito todo um trabalho no Rio de Janeiro, pelo método Glendoma, lá da Filadélfia, cujo nome é 'desenvolvimento do potencial humano', que nada mais é do que desenvolver os outros 90% que nós temos no nosso cérebro e que não usamos. Minha mãe descobriu essa clínica e eu fui para lá bem pequeno, não estudava ainda, e fiz esse trabalho inclusive para desenvolver a parte motora, porque eu demorei muito para andar... O pessoal brincava que quando eu tinha nove meses, um ano e pouco, a única coisa que eu fazia era falar. Depois de terminado esse longo tratamento se questionou "bom, e aí, pra onde ele vai? Ele tem que ter uma vida social, ele tem cinco anos já". Aí o colégio onde estudei se ofereceu pra me aceitar e a partir da primeira série permitiram que eu tivesse uma pessoa de fora lá, uma auxiliar que ficava comigo. Então eu tive quase que uma professora só pra mim; era uma estudante de magistério que me mostrava as coisas de perto, copiava as coisas da lousa...


SACI: E assim possibilitava que você acompanhasse a turma 'normalmente'?

Teco: Sim, aquilo foi uma inclusão. Sem ter essa palavra, porque na época não se usava ainda, mas os colegas ficavam diretamente comigo, tiveram que conviver com uma pessoa de fora, todos perguntavam que que essa pessoa estava fazendo lá, por que que esse carinha faz assim com o olho? Eu tive que explicar isso pelo menos uns três anos. Até uma vez chamaram minha mãe e falaram "olha, o seu filho fica apertando o olho lá e a criançada está apertando também, o que fazer?”. Aí tivemos que explicar tudo... Pouco tempo depois, quando a auxiliar não ia os colegas falavam "você quer que eu copie isso aqui pra você?". E nessa inclusão fui até a oitava série, já sem uma pessoa comigo.


SACI: Você foi atendido na sua necessidade, digamos assim, que era uma pessoa te ajudando ali, exatamente pra você ter um acompanhamento com a turma toda? Você não foi excluído, estava junto com todo mundo o tempo todo?

Teco: É, então, isso propiciou que eu fosse completamente integrado. Mas os anos foram passando e as dificuldades foram chegando, eu tinha que fazer expressão numérica... E alguém tinha que me mostrar porque o professor não podia ficar comigo né, e os outros? Então a oportunidade nesse colégio foi extremamente importante, acho que para todo mundo. As pessoas que estudaram comigo, quando veem minha mãe ou me veem na televisão, lembram na hora quem é! E a partir daí eu fui me desenvolvendo, mas chegou um momento em que foi muito difícil. Aquela pressão pra vestibular quase acabou comigo. Tinha um professor lá que não acreditava que eu tinha deficiência visual! Porque ele me via jogando futebol e achava que eu enganava ele! Eu lembro que fiquei em algumas matérias...Quando ia abrir o colegial, eu falei "não, não vou". Fiquei um ano parado, só fazendo outras coisas... Acabei resolvendo fazer o supletivo, só pra ter o colegial. Fiz do jeito que deu, o pessoal não era muito preocupado mesmo... E então falei "e agora, o que é que eu vou fazer?”. Fui procurar uma orientação profissional e falaram “bom, pelo seu perfil, você gosta de falar e tem o domínio dos idiomas...”.

Teco Barbero fotografa a repórter na Rede SACI


SACI: Que idiomas você fala?
Teco: Eu falo desde pequeno o italiano, porque é da família. Mas isso também partiu de mim porque minha avó teve 14 netos e só eu que falo bem o italiano. Também tenho o espanhol, inglês por obrigação, quer dizer, hoje eu gosto até, mas tive muita dificuldade... E um pouco de francês e de alemão.


SACI: Você já viajou bastante então?

Teco: Eu conheço dez países, EUA e os outros na Europa. Essas viagens foram experiências muito importantes, porque as três primeiras foram com meus pais, mas fiz uma totalmente sozinho também, que foi a última. Só que, como toda criança, eu queria ir pra Disney... Fui, só que quando eu cheguei lá, tinha dez anos de idade, e vi aquele parque enorme, cheio de brinquedos, de luzes, de gente... Aquilo quase acabou comigo de novo.


SACI: Por quê?

Teco: Porque eu nunca tinha visto tanta coisa ao mesmo tempo e isso acabou criando uma espécie de trauma, tanto é que antes de eu ir eu já começava a escrever na linha, em caderno normal, já tinha feito prova até... Quando voltei eu não conseguia escrever nada na linha. A professora me perguntou “viu, o que está acontecendo? Até antes de viajar você escrevia e agora não escreve mais?”.


SACI: Mais especificamente, o que aconteceu ali? Você teve noção da sua deficiência?

Teco: Não, não. Não foi um choque só de cultura, mas de situação adversa. Tudo nesse parque foi adverso pra mim porque era muito barulho, muitas luzes coloridas e eu queria olhar tudo ao mesmo tempo; muita gente também, então era difícil pra eu andar... Todas essas situações geraram um trauma em mim, e um dos reflexos foi na escrita. Bom, nessa altura eu falei “odeio os EUA”. E aí meu inglês já era. Só fui aprender realmente inglês depois do meu ano de jornalismo, porque aí todo mundo questionava e eu vi que ia fazer falta. Aí a dona de uma escola de inglês daqui era amiga dos meus pais. Ela falou “vamos fazer o seguinte, você vai lá, a gente vai fazer um preço melhor pra você e você faz o que quiser, vai montar a aula do jeito que quiser”. Porque eu tinha ido em outras escolas de idiomas e não tinha dado certo: “não é assim que eu aprendo”, "mas a escola é assim”. Fiz umas aulas lá então, visitei minha tia que morava nos EUA, e hoje eu falo bem inglês, já não odeio, é tranquilo. Se precisar ir para os EUA, eu vou.


JORNALISMO

SACI: Voltando pra depois do supletivo então...

Teco: Então, na orientação profissional falaram “por que você não vai fazer jornalismo?”. Conversei com algumas pessoas e disseram “bom, a escolha é sua, mas eu não sei, tem que escrever muito, tem que pegar na câmera...”. Ou seja, várias pessoas criaram empecilhos para que eu não fizesse. Mas eu falei “não, agora eu quero ver se dá ou não dá!”. Fiz na UNISO (Universidade de Sorocaba) mesmo. Tive a sorte de pegar bons professores que entenderam as minhas condições. Eu falei “não adianta vocês exigirem de mim o que eu não posso oferecer. Então não exijam que eu escreva um texto no computador agora, porque não vai sair. Mas eu posso fazer uma boa entrevista, é só ter um gravador. Eu tenho uma visão de mundo diferente da dos colegas que estão aqui, garanto pra vocês.” E aí foi...

SACI: Você tem algum programa de acessibilidade no computador?

Teco: Eu tentei usar o DOSVOX, mas não consegui porque tenho muita dificuldade pra digitar. Então estou procurando alguma coisa que seja por via oral, que eu consiga ou falar um texto, ou pelo menos “abra tal coisa”. Inclusive, como eu não conheço tanta gente com deficiência visual que não seja daqui de Sorocaba, é um ponto falho que tenho, o não domínio do computador.

SACI: Nós nos correspondemos por e-mail para marcar essa entrevista, você pede ajuda pro pessoal aqui?

Teco: É, eu dependo da minha irmã, quando ela pode e quer abrir os e-mails...

SACI: Enfim, você concluiu jornalismo?

Teco: Conclui em 2004. Fiz um TCC de televisão em grupo e foi mais uma forma de inclusão, não como no colégio, mas mais difícil ainda porque estava quase no meio profissional; de uma forma ou de outra, estava brigando com os colegas né... E eu tive que pedir ajuda pra eles, tive que mostrar que o que eu estava pedindo é porque não tinha mesmo como fazer... Demonstrar que eu tinha capacidade para fazer outras coisas. Todo semestre tinha que provar pra todo mundo que eu tinha condição de estar lá e que não estava lá por piedade; que era meu mérito e que toda ajuda que recebia eram coisas que estavam além das minhas possibilidades físicas. Isso foi mais uma barreira e que enfrento até hoje...

                                                                 FOTOGRAFIA


SACI: E a fotografia? Porque lendo seu blog e vendo a campanha da ADD (Associação Desportiva para Deficientes), vem a ideia de que as pessoas com deficiência podem fazer de tudo, por que não tirar uma fotografia? Hoje você quer passar isso para as pessoas, mas quando foi que você se deu conta disso?


Teco: Na verdade foi um convite de um amigo meu, o Werington Kermes. Ele foi secretário da cultura de Votorantim (SP) e é um jornalista e fotógrafo já renomado. Se buscarmos o nome dele na internet irá aparecer o projeto que ele fez. Como fotógrafo ele foi convidado a assistir um filme chamado “Janela da Alma”, com o Evgen Bavcar, que é um fotógrafo cego. Ele viu esse filme em 2002 e pensou “se esse cara consegue fotografar por que eu não posso ensinar outras pessoas a fotografarem?”. Então ele pensou nesse projeto, me conheceu na faculdade e propôs “você não quer fazer fotos?”. E eu falei que não sabia porque até então eu tinha feito uma única foto, em uma viagem com meu pai. Na ocasião, só estávamos eu e ele e ele questionou “quando é que eu vou sair aqui em uma foto?”. Aí ele deu um jeito lá, me posicionou e eu fiz uma foto, mas nem liguei muito. Quando veio esse convite do Werington eu me perguntei "por quê?". Embora eu consiga ver as fotos com alguma clareza, as outras pessoas para quem ele foi oferecer o curso falaram pior ainda! “Como vou fazer foto se eu não vejo? Que sentido tem isso?”. Então ele conseguiu o apoio da Asac (Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais), e montou um grupo com 12 pessoas. E eu aceitei, porque uma amiga minha que já conhecia o trabalho dele como fotógrafo falou “olha, esse cara é bom...”. Eu disse “então só para você parar de me encher o saco eu vou!”. E aí eu vi que era um projeto legal, que a proposta não era fazer a melhor foto, mas sim a fotografia como uma forma de inclusão. A gente fazia as fotos do nosso jeito, do que conseguíamos "ver" com as mãos, com os ouvidos, enfim, perceber o que estava à nossa volta usando os outros sentidos, é essa a ideia. As pessoas me perguntam como faço fotos... Eu uso todos os sentidos que estão à minha disposição.
SACI: Nesse sentido, não se precisa ser profissional, o importante é tirar a foto?


Teco: Isso, porque a ideia não é transformar ninguém em fotógrafo, nem eu era pra ser fotógrafo na época! O Werington queria ensinar uma coisa que ele sabia fazer, então ele montou um programa, arrumou câmeras, trabalhou com a gente os outros sentidos...

Tudo pode ser fotografado por todos...


SACI: Eram todos deficientes visuais no caso?

Teco: Nesse grupo inicial sim. E aí ele falou que precisava trabalhar com a gente o que mais usávamos, que é o toque né, as mãos... Então ele disse que nós precisávamos tocar em tudo o que aparecesse! Levou coisas para a gente sentir, cheiros também, pessoas diferentes para tocarmos, porque “ah, eu não conheço a pessoa, vou encostar nela?!”. Mas você precisa disso! Temos que valorizar o toque! Não é colocar em outro sentido, mas sim tocar porque é a nossa maneira de ver! E trabalhando assim vimos que deu certo, que nós, deficientes visuais, conseguimos fazer fotos!


SACI: O Werington Kermes foi pioneiro nesse quesito aqui em Sorocaba?

Teco: Ele foi pioneiro no Brasil com esse trabalho, se não me engano.


SACI: E você participou da primeira turma dele?


Teco: Em Sorocaba só teve essa turma... Mas teve uma boa repercussão, saiu no 'Jornal Hoje' (Rede Globo), nos jornais aqui da região... E aí ele queria levar a gente na semana do 'Arte Sem Barreiras', que é um evento que eu nem sei se hoje ainda tem ... Fui em 2003 acho, em Belo Horizonte. O Werington falou “vamos lá que, além de podermos mostrar as fotos, o Bavcar vai estar lá!”. Então eu fui, entrevistei o cara porque já estava no segundo ano de jornalismo e tinha os idiomas, que logo mostraram sua utilidade. Bom, a partir daí fui gostando cada vez mais de fotografia, vi que era um meio de me incluir, até mesmo na sociedade das pessoas com deficiência, pois eu fui criado fora dela; 99% das pessoas ao meu redor não têm deficiência. No meu colégio não tinha ninguém, na faculdade também não... Ainda mais deficiente visual. A minha vida toda foi assim.

                                                     Fotografia tirada por Teco Barbero no Mercado Municipal de Sorocaba


SACI: E hoje como é isso? Tem mais pessoas com deficiência ou elas se mostraram e foram mostradas? Você acha que esses 99% mudaram?


Teco: Hoje eu conheço mais pessoas que têm deficiência, claro... Conheci muitas dando o curso que me foi oferecido em São Paulo. Por meio disso eu aprendi muito também porque várias coisas que para mim eram normais, já não eram para eles, uma vez que eles não têm visão nenhuma e eu ainda tenho um pouquinho. Então algumas coisas fazem sentido para mim e para eles não... Por exemplo, eu me lembro de uma frase de um rapaz que fazia parte dessa turma do Werington: “como é que nós vamos fazer a foto de um carro, que é enorme, e vai caber ali naquele quadrinho de foto? Não faz sentido!”. E aí eu fiquei pensando “puxa, e não é que é verdade? Pra quem não enxerga, como cabe um negócio desses?!”. A partir daí comecei a questionar “o que isso daqui quer dizer para você?”, porque para cada pessoa é uma coisa diferente... Foi um aprendizado muito interessante. E hoje, que você me perguntou, bom, primeiro, tudo começa na família. Se a família não toma a iniciativa de mostrar a pessoa com deficiência para a sociedade, muitas vezes ela nem sabe como fazer isso... E aí entram o Estado e as instituições particulares. Acho que de um tempo pra cá o apoio tem sido maior, inclusive da famílias, que vão procurar ajuda. A informação está mais acessível... “Ah, o meu bebê é cego, o que fazer?”. Antigamente até se sabia da cegueira depois de um tempo, mas hoje você vai na internet e acha tudo o que quiser! Como educar essa criança, qual o melhor lugar, o mais acessível, enfim... Essa informação mais fácil é extremamente importante, porque é assim que os pais vão se instruir, a família toda né; como trabalhar com essa pessoa com deficiência desde o nascimento. Ela própria será criada nesse ambiente mais desenvolvido e, consequentemente, vai se desenvolver mais facilmente. Não vai ser como na minha época em que meus pais tiveram que achar alguém que contasse para eles da clínica no Rio de Janeiro. Então eu acho que a informação facilitada foi um dos canais mais importantes para que o deficiente hoje fosse mais desenvolvido. Mas ainda está muito aquém do que ele pode fazer, tanto é que as empresas ainda não contratam, a prática permanece distante da teoria...


SACI: Sobre esse assunto, o que você achou do vídeo de divulgação da campanha da ADD? (Assista-o pelo link: http://www.fotografocego.com.br/)

Teco: Eu achei uma grande sacada da agência porque eles usam esse slogan de que 'o deficiente pode fazer qualquer coisa' e mostram algo que a gente não vê todo dia! O deficiente físico jogando basquete já é comum até. Mas um cara cego fotografando o cara que joga basquete é diferente. E creio que é o que foi feliz na campanha.


SACI: E referente à sua fotografia, o que você quer dizer com 'a câmera é a substituta da bengala'?

Teco: É que você vai com a mão e a câmera o mais perto possível do objeto que será fotografado, quase o tocando. Claro que não podemos encostar nele, primeiro porque a foto ficaria ruim, e segundo porque não sentiríamos nada. Tem que ser o suficiente para saber exatamente onde ele está. Se você vai fotografar uma pessoa, toque no rosto dela, afaste a câmera e aí você conseguirá um bom resultado na foto. O Werington que descobriu essa técnica. Então de repente cortou um braço da pessoa... Bom, claro, todo mundo quer fazer a melhor foto possível, só que algumas vezes não é que 'cortou o braço', foi você que não o achou, não o sentiu! E é claro que se você não sentiu, você não viu e a imagem não vai aparecer! Mas isso não é o mais importante. O importante é chegar depois do natal e falarem “ah, essa foto foi o Teco que fez, nossa, olha essa daqui que legal!”. Ou seja, você está sendo incluído dentro da sociedade, da sua própria família, do trabalho também... Foi uma forma que o Werington encontrou para isso e que hoje eu uso.

SACI: Então é a visão que vocês têm que estará na fotografia representada?

Teco: Sim. E então não existe certo e errado.

SACI: As pessoas chegam a duvidar de que quem tirou determinada foto não enxergava?

Teco: O pessoal da 'TV Tem' (Rede Globo) fez um teste uma vez. Eles fizeram uma matéria, deram as imagens para um fotógrafo e perguntaram se ele achava que tinha sido um cego quem as tinha fotografado. Ele respondeu “não, não foi! Não está tão enquadrado no centro, mas a pessoa está aqui e tal”... E tinha sido uma pessoa do nosso grupo quem tirara as fotos. Depois de saber disso pensam “se o cara consegue tirar fotos, o que mais será que dá pra ele fazer?”. Então quem sabe um empresário que está vendo isso pense que esse cara pode trabalhar em uma empresa. Dá pra tentar mexer um pouco com a cabeça das pessoas, mostrar que se a pessoa com deficiência for estimulada, tiver um objetivo e tiver meios para alcançá-lo, não somente técnicas, mas orientação e tudo o mais, ela pode fazer coisas que nem imaginam.

SACI: E pra você esse foi o grande atrativo da fotografia? Perceber tudo o que você podia fazer?

Teco: Acabou se tornando isso... No começo foi pra ver aquele projeto, depois acabei usando-o como pauta pra mim mesmo e pra faculdade, e aí foi crescendo... O grupo do Kermes terminou, cada um seguiu sua vida e em 2009 veio o convite pra fazer a campanha da ADD, que foi um outro desafio...

SACI: Você fez o vídeo da campanha, correto?

Teco: O vídeo e as fotos. Quando o cara me convidou pra fazer vídeo eu disse que não sabia... O meu TCC em vídeo foi simples, não era eu quem manuseava a câmera, no máximo eu ficava parado entrevistando as pessoas. Quando cheguei lá o cara me falou “a ideia é mostrar no vídeo que você está fazendo as fotos desse cara aí na cadeira de rodas”. Tudo bem, parecia fácil, mas nós ficamos oito horas para gravar, porque tinha que ser na velocidade que o cara queria, enfim, uma série de coisas que eu e ele fomos nos adaptando para que o trabalho saísse. Hoje posso dizer que se alguém me convidar para um outro comercial, será muito mais fácil, pois já tive a primeira experiência, então eu sei que demora, que terei que me adaptar... Enfim, aprendi muito, mas porque alguém me deu a oportunidade.

SACI: Agora uma pergunta chata: quando você divulga o seu trabalho, em porcentagem, quanto você acha que a motivação seria pela própria divulgação dele e quanto seria pela causa da deficiência, da inclusão? Você conseguiria colocar isso em porcentagem?

Teco: Ah, eu acho que pelo menos 50% para cada. Porque eu não nego que também estou tentando descobrir um mercado para isso; hoje em dia faço até palestras...

SACI: E sobre o que você fala nas palestras?

Teco: Elas são sobre a história da minha vida e eu trabalho essa história como uma motivação profissional. Foi um amigo meu, publicitário aqui de Sorocaba, que me convidou. Disse que eu tinha uma história interessante e diferente a ponto de talvez motivar as pessoas... Aí ele me ajudou a montar a palestra. Enfim, eu quero transformar isso, quem sabe, em um real tipo de trabalho. Mas ao mesmo tempo não tem como eu dizer que é exclusivamente isso, que eu quero trabalhar na área e não relacionar com a causa da deficiência. Porque é disso que eu falo! Claro, depende muito do modo como tratamos, dizer que só eu faço fotografia porque eu sou o único fotógrafo cego capaz e etc. não dá! Mas nos cursos que ofereço tento mostrar que os outros também podem...

SACI: O curso que você deu no '24 Horas de Olhar Universal' foi isso?

Teco: Justamente. Pena que só foi um dia, então não deu pra ensinar muito... Mas a ideia foi essa, eu contei um pouco da minha história e mostrei a técnica. O diferencial lá é que havia 50% com deficiência visual e 50% não. Os que não tinham deficiência foram vendados...

SACI: Nós demos a notícia do curso no site da Rede SACI...

Teco: E a 'Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência' disse que muita gente quis fazer o curso, e estão estudando um outro para dar. O legal é, primeiro, a integração, porque muitos nem tinham visto um deficiente na vida... Aí vão lá e já mudam um pouco a maneira de pensar quando encontrarem um outro na rua. Os 50% que enxergavam tiveram uma sensação completamente diferente, pois eles ficaram vendados, tiveram que andar dentro do pátio, ficaram desesperados, “mas como eu vou andar aqui?!”. “Viu como é? Não é fácil...”. “Mas cadê a câmera? Eu não acho nada, não acho o botão...". “Estou te falando: sinta a câmera, sinta as partes da câmera!”. “Ah é, está aqui mesmo...”. “Então, vocês estão percebendo como é a vida das pessoas que não têm visão? É assim, vocês tiveram uma pequena amostra aqui...”. Tinha até um cadeirante participando e ele falou “nossa, não andar já é normal para mim, mas ficar sem enxergar foi horrível!”. E eu falo na palestra que essa sensação experimentada podemos levar para a vida toda. Porque encontramos situações na vida diária que se olharmos com outros olhos, nos sairemos melhor. Coisas simples, como quando ficamos sem energia... Se estamos sem enxergar, mas soubermos que colocando a mão assim encontraremos a porta, iremos fazer isso e teremos aprendido mais uma. Pode ajudar em qualquer situação, mesmo no trabalho... É isso que eu quero com o tempo mostrar, fora fazer a ligação entre os que não tem visão e os que têm.

                  Alunos de Teco Barbero no projeto '24 Horas de Olhar Universal', um com deficiência visual e outro não

SACI: Nesse curso as atividades foram feitas em dupla?

Teco: Sim. Nós tentamos colocar pessoas que enxergavam ao lado das que não enxergavam, justamente para haver integração. Até os professores que estavam lá me auxiliando vinham comentar comigo depois: “eu vi a foto que o fulano fez, que legal, não é que dá certo mesmo!”

SACI: Pessoas engajadas na luta das pessoas com deficiência se surpreenderam também?

Teco: Sim, porque viram os resultados. Uma coisa é olhar uma foto minha no blog, me ver tirando uma foto. Outra é observar os alunos fazendo isso...
SACI: E quando você começou de vez a tirar fotos, teve preconceito por parte das pessoas, família, amigos? Alguém chegou a duvidar de que fosse possível ou te apoiaram?

Teco: Na família todos acharam diferente e queriam ver no que ia dar. Os amigos... Bom, o pessoal da faculdade viu esse projeto começar lá e depois se surpreenderam com o tamanho da repercussão já naquela época. Quando veio o comercial que muitos não sabiam que eu tinha feito, vinham falar comigo. Então o apoio foi muito bom.

SACI: Você comentou sobre o pioneirismo na área da fotografia feita por deficientes visuais, pode falar melhor sobre isso?

Teco: Eu escutei falar que havia um trabalho assim no sul. Mas sei que em São Paulo o primeiro trabalho feito foi o do nosso grupo com o Werington Kermes. Ele mesmo levou esse projeto para outros lugares depois, conseguiu mais duas turmas parece... Participei com ele de um projeto no início do ano passado no SESC Pinheiros, em São Paulo (SP), que era muito semelhante ao curso do '24 Horas de Olhar Universal', só que nenhum deficiente procurou. E só tinha umas dez, doze pessoas, todas sem deficiência. Quem promoveu foi o Werington, mas ele me convidou para ir um dia mostrar para esse grupo que o projeto estava dando resultado, pois eu sou um produto final do curso que ele fez. Então nós vendamos todos eles, e também por meio dessa aula acabei me interessando para montar meu próprio curso. Porque foi a primeira vez que instrui alguém. No outro eu era só um acompanhante que mostrava algumas coisas. Nesse era só eu, no da Secretaria era só eu! Foi mais uma experiência diferente.

SACI: Podemos dizer que foi uma inspiração para você?

Teco: Totalmente. Eu pensava no que tinha feito com o Werington porque o mais difícil é não poder virar para as pessoas e dizer: "gente, olha aqui, você vai pegar isso...". Não dá porque ninguém está vendo! Você tem que mostrar pessoa a pessoa ou dupla a dupla... Tomando pelo último, no próximo eu já sei que vou fazer um pouquinho diferente, porque todo mundo quer fazer ao mesmo tempo! Então já descobri que para dar um curso desse eu preciso de, no mínimo, mais duas pessoas comigo, para que elas me contem como cada dupla está se saindo, quem está se atrapalhando e etc...

SACI: E hoje você acha que tem mais fotógrafos cegos? Conhece mais algum curso na área? Ou isso ainda está aumentando muito devagar?

Teco: Bom, eu tenho esse problema da internet, porque talvez se eu estivesse mais conectado eu saberia melhor o que acontece por aí. Como não estou, dependo do que me contam. E todos os dias eu fico esperando isso. Sei que quanto mais eu divulgar, melhor. É aquilo que eu falei, eu não quero divulgar só para fazer disso uma profissão, mas também para mostrar para as pessoas. Se alguém ver o meu blog e tentar fazer fotos sem falar comigo, ótimo!

SACI: Por último, você conseguiria falar agora um sonho que tenha no sentido de artes e acessibilidade, mais especificamente no caso da fotografia e sua inclusão?

Teco: Eu acho que talvez a grande meta fosse fazer uma enorme exposição com todas as fotografias acessíveis, em alto relevo. A ideia é um dia, quem sabe, conseguirmos um espaço legal para montar uma grande exposição com fotos tiradas por pessoas com deficiência e pessoas até que fizeram com os olhos vendados e mostraram que quiseram se incluir nesse tipo de projeto. E alguns textinhos contando como foi a experiência de cada um. E então as pessoas indo visitá-la e mudando... Não é só querer fazer foto, isso é a coisa mais fácil do mundo hoje em dia, tirando os deficientes que precisam da técnica, faz-se de qualquer jeito. É mais do que isso, é fazer com que as pessoas vejam e entendam uma exposição dessa e saiam pensando em quantas coisas os deficientes podem fazer! E pensem também que se elas ficarem com alguma deficiência amanhã por algum motivo, elas não vão perder as coisas! É só mudar o foco e encontrar outras maneiras para se fazer o que você fazia e mais! O meu grande sonho de fotografia, arte e inclusão seria mais ou menos isso.



                                                    Serviço



Projeto 24 Horas de Olhar Universal: promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência e pela Fundação Stickel. Realizado no dia 25 de outubro de 2010 na cidade de São Paulo - SP. Teco Barbero atuou como professor de curso de fotografia para deficientes visuais.



Campanha publicitária da ADD (Associação Desportiva para Deficientes): visa mostrar - por meio do trabalho de Teco Barbero como fotógrafo e da participação de outros deficientes - que uma pessoa com deficiência pode fazer qualquer coisa. O site da Associação contém breve documentário sobre Teco Barbero, assim como making of da campanha, os materiais desenvolvidos e divulgados, dentre outros correlacionados; veja clicando no link: http://www.fotografocego.com.br



FACENS (Faculdade de Engenharia de Sorocaba): onde Teco Barbero trabalha atualmente, fora as matérias das quais participa e as fotos que faz. Atua como espécie de editor e coordenador do jornal interno “Sou Mais FACENS”, que gira em torno dos 6000 exemplares. Leia a última edição (fevereiro) clicando a seguir: http://www.facens.br/informativos/



Blog Teco Barbero: onde publica seus trabalhos e participações, além de divulgar seus contatos. Visite-o para saber sobre outras reportagens e eventos que tiveram contribuição do jornalista/fotógrafo; clique no link: http://tecobarbero.blogspot.com/

A reportagem pode ser vista no site SACI e ficará por um mês como destaque
www.saci.org.br
















































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